TOM ZÉ 80 (um registro mais que necessário)

TOM ZÉ 80 (um registro mais que necessário)

Aconteceu em Salvador, na Bahia, entre junho e agosto de 2017. Promoção Caixa Cultural Salvador, sob a curadoria e direção de arte de André Vallias, que assim se expressa: “Esta exposição nasce sob o signo do espanto: hã? o quê? Tom Zé fez 80 anos? Pois é, o Sr. Antonio José Santana Martins está completando toda essa idade de bons frutos.

Nada mais oportuno que fazer essa reverência a esse nome de destaque da música popular brasileira, de alcance mundial. Para alguém como eu que pode como fã viver aqueles momentos únicos da Tropicália vão se lembrar da sua trajetória. Para aqueles que o conheceram depois, tiveram a oportunidade de conhecer um grande artista, presente nos momentos mais importantes da história da nossa arte.

No catálogo da exposição tem-se a feliz oportunidade de saborear o texto do poeta, antropólogo, tradutor e romancista Antonio Risério trazendo do homenageado, fatos importantes para a compreensão de sua obra. Depoimentos como os de Caetano Veloso e a grande oportunidade que teve com o músico, compositor e professor Hans Joachim Koellreutter, demonstram um pouco da sua importância. São dessas surpresas e coincidências que a vida reserva àqueles que puderam exprimir o seu talento através de grandes ensinamentos.

Além do engajamento político do artista durante parte da sua formação, Risério lembra sua passagem pelos Seminários Livres de Música da Universidade da Bahia que sob a direção do reitor Edgar Santos viveu um dos seus momentos mais progressistas. Um dos personagens que por ali passou foi exatamente Koellreutter, que Tom Zé lembra até hoje como diz Risério. Desde a primeira aula com o grande mestre. “Conta ele que Koellreutter entrou na sala com alguns livros, que despejou em cima da mesa, chamando a atenção da audiência. E então disse, com voz firme: Música não é a expressão dos sentimentos através dos sons. Tom Zé levou um susto. O manual de teoria musical de uma antiga escola de música, que ele tinha lido, começava afirmando justamente que música era a expressão dos sentimentos através dos sons. E agora Koellreuter entrava na sala para detonara afirmação, logo no primeiro dia de aula. Foi aí que eu compreendi o método de pescar almas, inaugurado por Koellreutter e seguido por Widmer e Smetak” (dois suíços convidados pelo professor para vir para a Universidade) diz o poeta-músico. Eles procuravam despertar a inquietude, educar para a ousadia e a invenção”.

Vale a pena conhecer um pouco da trajetória desse grande músico alemão, o que não é objeto deste artigo. Contudo, cita-se esse episódio, pois Risério traz uma análise do professor sobre Tom Zé, que vale a pena registrar:Tom Zé - Ana

“Para mim, Tom Zé é um representante de um novo pensamento, cujas características talvez ainda não conheçamos. Quer dizer, alguma coisa que está prestes a chegar. Em primeiro lugar, ele desenvolve um estilo muito próprio. Isso, para mim, é um critério  importante. Realmente, algo de novo, que funde todas as características, pode-se dizer, que ultimamente surgiram na música. Por exemplo, a superação de certos dualismos, como consonância/dissonância, belo/feio…Principalmente, também um novo conceito de tempo. O tempo que existe nessa música ainda vem de uma característica do samba, mas é um tempo que muda constantemente e transforma todos os outros parâmetros. É o que eu chamo um tempo quadridimensional. Não é mais um tempo de relógio rigoroso. É mais emocional, em tudo isso que ocorre na partitura. Eu sinto isso. E fico muito impressionado…Ele é um artista que não tem medo. Que vai adiante. Que apresenta uma   arte capaz de transformar as pessoas que consomem. Eu acho que isso é a função do artista”.

Como todo artista, principalmente com essas características, as dificuldades, o reconhecimento tardio, o desprezo pelo trabalho artístico, não podia ser diferente com Tom Zé. Esta exposição, a qual tivemos a oportunidade, quase coincidente também, de ver, gostaria que circulasse o Brasil, para que o universal da sua obrado chegasse a todos os cantos.

IMG_0870                                Tom-Ze-Ana

O programa da Exposição que também tem um estudo de sampler que explora a composição visual dos arames farpados e cordas criada por Tom Zé para seu disco Estudando o Samba de 1976, termina com a seguinte mensagem:

texto-tom-ze

Tom Zé

 

Autoria: Milton Machado Luz

Cientista Social e autor de artigos sobre história, cultura e literatura.

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