O Samba perde um dos seus maiores personagens: Almir Guineto.

O Samba perde um dos seus maiores personagens: Almir Guineto.

Morreu hoje, dia 05 de maio de 2017 o sambista Almir Guineto, aos 70 anos de idade, internado que estava desde março para tratar de uma pneumonia e complicações renais crônicas decorrentes da diabete, assim informaram os canais oficiais. Bem no dia do aniversário da cantora Beth Carvalho, uma das maiores intérpretes de suas músicas, como que dizendo: entrego a você meus sambas que foram a minha vida.

Foi o representante perfeito do samba bem carioca e da vida de um sambista carioca. Nasceu e cresceu no morro do Salgueiro, na grande Tijuca, onde despontou para o samba, foi mestre de bateria e diretor da sua mais importante escola. Viveu lá até os anos 70.

Ó Insensato destino (música que sua voz imortalizou, embora não fosse composição sua). Preferiu se afastar do morro que lhe trazia muita tristeza, pois foi onde um dos seus três filhos foi assassinado.

Se hoje utilizamos a expressão “samba de raiz”, parte disso se deve a ele.

No mundo do samba era ação, participação, criação. Foi assim quando introduziu o banjo, um instrumento com braço de cavaquinho no samba do Grupo Fundo de Quintal do qual foi um dos fundadores, frequentando o Cacique de Ramos. Tempos difíceis para quem tinha tanta consciência dos problemas políticos do país.

Deem uma olhada neste samba.

Meu Sangue É Brasil

Trago no sangue
O verde, amarelo e o anil
Meu sangue é Brasil

É preciso achar doutor pra curar
Doença valente
A corrupção lesa a nação
Em todas as frentes

Até pé no chão ô ô
Já tem avião ô ô
Com a grana da gente
A lei da propina anda na surdina
E joga pesado

Vamos batalhar ô ô
Pra modificar ô ô
Todo esse quadro
Sem reforço novo
O time do povo
Será goleado (será goleado)

Como não bastasse
Defender a classe
Sempre cavalheiro
Serei perseguido
Por que meu partido
Não é o dinheiro

Há quem padeceu
Tanto como eu
Cantarei primeiro
O meu canto é forte
Vai de sul à norte
É mais brasileiro
É mais brasileiro
Trago no sangue
O verde, amarelo e o anil
Meu sangue é Brasil

Até em São Paulo, com Mussum veio participar, quando foi cavaquinhista dos Originais do Samba. Era 1979. Mas o seu destino estava no Rio de Janeiro mesmo.

Depois que deixou o grupo para realizar carreira solo, foram vários discos: O Suburbano (1981); A Chave do Perdão (1982); Sorriso Novo (1982); Album Almir Guineto (1986); Perfume de Champagne (1987); Olhos da Vida (1988); Jeito de Amar (1989); De Bem com a Vida (1991); Pele de Chocolate (1993); Acima de Deus, só Deus (1995); Pés (1997); Álbum Almir Guineto (1999); Todos os Pagodes (2002); Sambas de Almir (2003).

Ficou 11 anos longe dos estúdios. “…que importa se o tempo lá fora vai mal…que importa?…” (é bom ver isto), se há tanta Lama nas Ruas …, encarou a realidade e a atualidade…

Mãos

Mãos, se rendem
Pra outras que tudo levam
Quase em extinção
Mãos honestas, amorosas
Em nossas pobres mãos
Que batem as cordas
Pago pra ver
Quei…mar em brasa
As mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam réus
Em troca do vil metal
As mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam réus
Em troca do vil metal
Mãos de infiéis
Revés que não contentam
Movendo a diretriz tão fraudulenta
Sem réu e sem juiz
Mãos não se acorrentam
Justiça põe as mãos na consciência
Ato que fez Pilatos
Lavando suas mãos
É o mesmo que injustiça
feita com as próprias mãos
As mãos que fracassaram
Na torre de Babel
Porque desafiaram
As mãos do céu

“…deixa a chuva cair que o bom tempo há de vir…”; volta em 2012 com “Cartão de visita pela Radar Records. Uma trajetória e tanto. Brilho nos olhos de quem sempre valorizou a boa música.

Aos sambistas, a quem legou a alegria do samba, acho que ele diria: “Deixe de lado esse baixo astral, erga a cabeça e enfrente o mal …” como tantas vezes ele fez. A morte, os vícios, a separação, as doenças. E o tempo foi passando e se esgotando. Desde ironizar as “mordomias” e sentir o “mel na boca”, foi a alma de “todos os pagodes”.

almir_guineto_-_divulgacao_-site_do_artista

foto promocional do site do artista

Hoje “Coisinha do Pai” está entre as estrelas às quais se juntará mais um astro reluzente cuja luz e som, temos certeza, repercutiremos por muito tempo ainda.

Guardar os momentos felizes preencherão de alegria as recordações.

Almir Guineto

Ana Lucia e Milton na comemoração dos 30 anos de carreira do compositor. SESC São Paulo.

Milton Machado Luz – Rio Claro, 05 de maio de 2017.

Autoria: Milton Machado Luz

Cientista Social e autor de artigos sobre história, cultura e literatura.

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